Pelé viveu uma vida grandiosa e repleta de feitos e recordes notáveis. No entanto, sua trajetória não foi privada de tristezas.

Fora dos gramados, o rei do futebol, vencedor de 3 títulos mundiais e considerado o “Atleta do Século XX” pelo Comitê Olímpico Internacional, teve muitos problemas pessoais que o desgastaram, especialmente nos anos mais recentes.

Uma delas foi a prisão do filho Edinho, que chegou a ser goleiro do Santos na década de 90. O fato deixou Pelé depressivo por anos e o fez se culpar pela ausência como pai.

Inicialmente, Edinho se tornou notícia nacional após se envolver em um acidente automobilístico. Depois, foi acusado de tráfico de drogas em 2005 e condenado a 33 anos de prisão.

Com idas e vindas do sistema prisional, conseguiu se reinserir à sociedade em 2019.

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Em 2006, o ex-futebolista fez um desabafo em uma autobiografia, lançada pela editora Sextante. Na obra, ele reconhece o peso negativo de Edinho ser filho do maior jogador de todos os tempos.

“Os amigos costumavam me dizer que Edinho escolhera a posição [de goleiro] como uma maneira de evitar comparações com o pai. Isso faz sentido, é algo que consigo entender.”

No livro, Pelé conta também que, pouco depois de entrar no Santos, o filho fraturou o joelho, em 1996, e ficou um ano e meio afastado.

“Durante sua recuperação, Edinho foi para a Ponte Preta por empréstimo. Mas a convalescença não foi fácil e nunca mais retornou à sua melhor forma. Aposentou-se em 1999”, lamentou.

Nos anos seguintes, Edinho tentou competir em corridas de motocross, mas já havia iniciado a queda livre em sua vida.

Nesse trecho do livro, Pelé lembra um texto que escreveu quando ainda era jogador.

“Em 1970, o ano em que o Edinho nasceu, escrevi algumas palavras que voltariam para me assombrar: ‘O jovem sempre acha que é melhor que o mais velho. Isso às vezes o leva a fazer coisas que não deve’. […] Eu aconselho aos jovens que todo excesso é prejudicial, a começar por fumo e álcool. Acredito que um jovem pode pertencer a grupos, mas deve ter personalidade própria, não se deixar levar pela imitação ou influência.”

Pelé também se culpou por ter passado tantos anos fora de casa, na década de 70, e atribui a essa ausência parte da explicação para os erros do filho.

Como exemplo, citou o ano de 1992, quando Edinho participou de um racha que resultou no atropelamento e morte de um motociclista.

“Quando o caso foi a julgamento, Edinho acabou sentenciado a um ano e meio de prisão em regime aberto, embora, não tivesse sido diretamente responsável — não era ele quem dirigia o carro”, defendeu o pai.

Em um julgamento posterior, o filho do Rei acabou sendo inocentado desse caso.

Sua paz durou pouco, já que a Justiça voltou a bater à porta, desta vez, por um envolvimento de Edinho com o tráfico de drogas.

“Uma das pessoas com que Edinho andava, ou que se aproximou dele, era um homem conhecido como Naldinho”, narra Pelé na autobiografia.

“Um dia, acusado de estar envolvido com drogas e lavagem de dinheiro, Naldinho foi preso numa operação policial. Como sócio de Naldinho, Edinho acabou preso também: em 6 de junho de 2005, os agentes de narcóticos deram uma batida na casa dele em Santos, onde ele morava com a esposa Jéssica e as duas filhas. Não conseguiram encontrar nada que pudessem classificar de ilegal, mas, alegando uma infração do artigo 14 da Lei 6.368, que tratava da associação para o tráfico de entorpecentes, decidiram levá-lo preso.”

Pelé continua: “Se baseava em conversas casuais ao telefone com certas pessoas que não provavam associação alguma, muito menos um crime.”

“Quando me contaram o que tinha acontecido, foi como um pesadelo, e um pesadelo do qual eu não conseguia acordar […] Tive que tomar consciência do que estava passando por algo que jamais imaginara ser possível — ter um filho preso por tráfico de drogas.”

Paradoxalmente, o futebolista era um notório defensor de campanhas contra o uso de drogas.

Com a prisão decretada, Edinho passou dois meses em um presídio de segurança máxima em Presidente Prudente (SP).

“Aqueles 60 dias em que Edinho permaneceu no presídio de segurança máxima foram, sem sombra de dúvida, os piores da minha vida. Ele estava sendo tratado como um monstro, retirado do convívio social e trancafiado como se fosse algum pervertido que pudesse fazer mal ao mundo”, reclama Pelé. “Eu sentia vergonha, medo, uma sensação de fracasso, dúvida, tristeza, ódio.”

“O meu coração de pai atravessou seu maior teste. Chorei muito. Não conseguia dormir e me perguntava se era justo que coisas como aquela estivessem acontecendo comigo”, comentou.

Nesse meio-tempo, Pelé contratou os melhores advogados que pôde para defender o filho, época em que também iniciou uma cruzada contra o tráfico. “Lutei incansavelmente e ainda luto, esperando que um dia essa guerra seja vencida. O consumo abusivo de drogas é, evidentemente, um assunto delicado, complicado, mas está provocando no mundo um câncer incurável que destrói nossa sociedade”, afirma no livro.

Posteriormente, Edinho foi transferido para Tremembé (SP), onde passou pelo centro de reabilitação da penitenciária, um local melhor e mais próximo de Santos (SP).

Ao final do relato, Pelé diz que chegou à conclusão de que “não poderia assumir sozinho a responsabilidade” pelo que aconteceu. “A única coisa que faltou ao Edinho e aos meus filhos foi a presença constante que se poderia esperar de um pai participante. Arrependo-me disso, mas foi uma consequência inevitável do que eu fazia para viver.”

A autobiografia de Pelé foi lançada em 2006, quando Edinho continuava na cadeia. Ele foi condenado a 33 anos por lavagem de dinheiro e tráfico de drogas, mas teve a pena reduzida em fevereiro de 2017 para 12 anos e 11 meses de reclusão.

Edinho conseguiu sair do regime fechado em setembro de 2019, quando obteve o direito de cumprir o restante da pena no regime aberto.

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Fonte: R7

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Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.