Tem série que faz você jogar junto: você observa a casa, desconfia das pessoas, caça pista no cenário e monta teoria na sua cabeça como se estivesse resolvendo um quebra-cabeça. Servant entende esse impulso — e transforma isso em arma.
Ela te dá “controle” na medida certa (um detalhe aqui, um silêncio ali), só para, logo depois, mostrar que você estava olhando para o lugar errado.
Lançada no Apple TV+ em 28 de novembro de 2019 e encerrada em 17 de março de 2023, a série tem 4 temporadas, 40 episódios e capítulos curtos, geralmente na faixa de 24 a 36 minutos.

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Esse formato rápido não é acaso: ajuda a história a cortar no momento exato, quando você acha que vai receber uma resposta — e fica com a pulga atrás da orelha até o próximo play.
A criação é do britânico Tony Basgallop, com M. Night Shyamalan como produtor executivo e figura central do projeto (ele também atua como showrunner e dirige episódios).
A premissa parece simples no começo: um casal da Filadélfia tenta seguir a vida depois de uma tragédia, e a chegada de uma babá misteriosa bagunça a casa — de dentro pra fora.
O elenco principal é afiado e funciona como motor da tensão: Lauren Ambrose vive Dorothy, apresentadora de TV que insiste em manter as aparências mesmo quando tudo está por um fio; Toby Kebbell é Sean, chef e marido que tenta administrar o caos como se fosse logística; Rupert Grint entra como Julian, o cunhado que fala o que ninguém quer ouvir; e Nell Tiger Free é Leanne, a babá que chega com um jeito dócil — e uma presença que muda a temperatura do ambiente.

O que Servant faz melhor é te prender num espaço pequeno e te convencer de que você está enxergando tudo.
A casa dos Turner vira um tabuleiro: portas fechadas demais, corredores apertados, porões e sótãos que parecem guardar segredo até quando estão “vazios”. A série aposta no detalhe cotidiano (comida, rotina, visita, objeto fora do lugar) para criar estranheza sem precisar correr para o susto.
E aí vem o golpe: quando você pensa que está decifrando o gênero — “é trauma?”, “é seita?”, “é sobrenatural?” — ela muda o foco e te obriga a revisar o que você tinha certeza.
Essa brincadeira de percepção é reforçada pela forma como os episódios são montados. A narrativa gosta de terminar cenas um segundo antes da explicação, ou de cortar a conversa justamente quando você esperava a frase decisiva.

É uma série que confia no desconforto e usa repetição de situações (jantares, visitas, confrontos, pequenas mentiras) para te fazer notar uma coisa: naquele ambiente, todo mundo está controlando alguém. Só que nem sempre quem parece mandar é quem manda de fato.
No fim das contas, o prazer de Servant é esse: você assiste tentando dominar as regras, só para descobrir que as regras estavam sendo escritas na sua frente.
E quando a série chega ao encerramento, ela resolve o conflito principal com uma escolha bem clara: menos “explicação de quadro branco”, mais confronto emocional e consequência — do tipo que faz sentido com o que foi semeado por temporadas.
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